Relações amorosas e pandemia: como cuidar dos afetos em tempos de crise

Atualizado: Jun 15

Por Sarah Sanches, jornalista


A pandemia do novo coronavírus impôs mudanças abruptas. Além das questões de saúde pública, em escala global, a crise econômica e as transformações sociais impactam diretamente a saúde mental das e dos sujeitos, assim como o modo de organizar e viver o dia a dia. Com as medidas de distanciamento social, as relações interpessoais enfrentam dois cenários possíveis: ou o do afastamento físico, com cada um em suas casas, cidades ou estados; ou o convívio continuado, sem tréguas. Em ambas as situações, os relacionamentos enfrentam novos desafios, dificuldades e também (por que não?) novos prazeres.


Quanto ao surgimento ou aprofundamento dos conflitos, é um risco que todos correm neste período diante da exposição a uma série de eventos estressores sobre os quais não é possível ter controle, como explica a psicóloga Deyse Santos. “O que acontece em uma relação afetiva, de namoro ou casamento, diante de algo como a pandemia? Eles estão vivendo juntos a exposição a um evento ameaçador, que a gente não tem a dimensão do tamanho. Então, em função deste contexto, os indivíduos que compõem a relação, e já carregam crenças negativas sobre si mesmos, sobre o mundo e sobre o futuro, têm essas crenças ativadas e podem apresentar comportamentos problemas e desencadear uma série de problemas nessa estrutura relacional, dificultando a relação a dois e dentro de casa”.


Em um contexto tão adverso, nem sempre é possível evitar situações de conflito, mas mesmo o conflito pode vir a ser produtivo para a relação, desde que o casal esteja disposto a refletir, individualmente e juntos, sobre as suas questões pessoais e sobre os problemas que podem, de fato, existir na relação. Para isto, um dos caminhos possíveis, orienta Deyse Santos, é a psicoterapia e a psicoeducação, uma das técnicas utilizadas pela Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que consiste na educação do paciente sobre a sua psique, demandas psicológicas e a própria psicoterapia. “A partir da psicoeducação, eu entendo que é natural ter algumas reações emocionais e comportamentos. É natural se sentir ansiosa, é natural ter uma enxurrada de pensamentos, são coisas esperadas. Precisamos ter cuidado é com a frequência com que essas sensações e reações acontecem. E quando o casal entende isso, pode lidar de maneira mais adequada com o outro”, comenta a psicóloga.


Para dar conta do cotidiano e das restrições impostas pela quarentena, os casais têm buscado novas formas de estarem juntos. Investir em tempo de qualidade a dois e apostar em uma nova rotina, com atividades prazerosas, pode ser uma dica de ouro. “Antes da pandemia, nós saíamos bastante nos finais de semana. A gente costumava frequentar restaurantes, bares e viajar. Agora só ficamos em casa. Para distrair, a gente assiste filmes, passamos a cozinhar mais juntos, além de cuidar da pele”, comenta a social media Kamila Freire, 23 anos, sobre os caminhos encontrados por ela e o namorado, o filmmaker Marcio Filho, 24 anos, para driblar a monotonia do espaço doméstico.


Marcio Filho e Kamila Freire, juntos há 6 anos e 11 meses. Foto: Arquivo Pessoal


Como a pandemia não tem prazo para acabar, é importante também estar disposto a pensar em novas estratégias ao longo do caminho, evitando que o dia a dia pese muito sobre a relação. “Enjoamos de assistir filme e começamos a jogar um game online de sinuca. Eu, no meu celular. Ele, no dele. Jogamos um contra o outro. É bem divertido”, complementa Kamila, mostrando que não precisam ser coisas muito complexas ou elaboradas.

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Tecnologia como aliada do romance

Alguns casais têm passado a pandemia mais distantes fisicamente. Nestes casos, o uso de aplicativos como o WhatsApp e de recursos como a chamada de vídeo têm sido fundamentais para manter os pombinhos juntos, fazendo com que possam compartilhar momentos e aliviar a tensão do confinamento. É o caso do comunicólogo Leandro Silva, 28 anos, e da namorada Maria Pamponet, 25 anos, que é administradora e consultora de moda.


Juntos há quatro anos, o casal tem respeitado o período de 15 dias de afastamento necessário a qualquer saída de casa, equivalente ao tempo máximo de incubação do novo coronavírus, o Sars-CoV-2. Na ausência de sintomas, eles passam o fim de semana juntos e depois esperam mais 15 dias para se reencontrarem. Entre um encontro e outro, os dois, que trabalham em regime home office, seguem as medidas preventivas necessárias para evitar a contaminação e não precisar retardar ainda mais o próximo encontro a dois.

Leandro Silva e Maria Pamponet, juntos há 4 anos. Foto: Arquivo Pessoal.


“Acho que tudo isso fortaleceu ainda mais a nossa união porque a saudade aumenta e, com isso, estreita mais ainda os laços”, comentou positivamente Leandro. Nos dias em que estão longe um do outro, eles mantêm contato virtualmente. “Até algo que eu sempre detestei, que é chamada de vídeo, estamos usando. No final de semana, sábado e domingo à noite, os horários que sentimos mais falta um do outro quando não estamos juntos, a gente usa o FaceTime”.

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Perto um do outro, mas longe de casa

Os recém-casados, Leila Dantas, 25 anos, e Daniel Dantas, 37 anos, estão bem longes da Princesinha do Sertão. Morando há seis meses na cidade de Porto, em Portugal, eles têm vivido a pandemia fora do país, afastados de todos que conhecem. Daniel, que é professor titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mudou-se temporariamente para Portugal para fazer pós-doutorado, e Leila, que é cirurgiã-dentista, foi com o objetivo de fazer alguns cursos na sua área. O casal que aproveitava uma eurotrip desde dezembro do ano passado, teve sua agenda de viagens cancelada após fevereiro. Em março, com tudo programado para irem à Itália, então epicentro da COVID-19, o casal guardou as malas e passou os meses seguintes, até maio, 100% isolados.


Leila Dantas e Daniel Dantas têm uma história de amor de 5 anos e meio.

Foto: Arquivo Pessoal.


“Acreditamos que o fato de já estarmos há alguns meses, mesmo antes da pandemia começar, fora da nossa rotina normal, contribuiu para que fosse mais fácil o período de isolamento juntos, já que desde que chegamos nosso dia a dia consistia em ficarmos o tempo inteiro um com o outro”, comentou o casal. Contudo, a distância dos entes queridos foi motivo de preocupação para ambos. “Uma dualidade de sentimentos, ao mesmo tempo que ficamos tranquilos diante da responsabilidade do governo português se comparado ao governo brasileiro, sentimos muita angústia por nossos familiares e amigos estarem expostos a riscos maiores no Brasil”, pontuou Leila ao falar sobre os impactos de se estar fora do seu país.


Para aproveitar os três meses que passaram em isolamento total, sem viagens e passeios ao ar livre, Leila e Daniel não só aproveitaram o tempo para apimentar mais a vida sexual, assim como curtir atividades a dois, como videogame, maratonas de séries e filmes e cozinhar juntos, como investiram em seus próprios hobbies e interesses individuais. “Não é porque estamos na mesma casa que não podemos fazer nada sozinhos. Eu tenho lido muito, enquanto Daniel escreve os artigos relacionados ao pós doutorado”, exemplifica Leila ao recomendar que os casais não deixem suas individualidades de lado, evitando sobrecarregar a relação e a vida a dois.


“Achamos que é um momento crucial para todos os casais. Aqueles que têm oportunidade de passarem o momento de isolamento juntos, podem aproveitar a oportunidade para conhecer melhor o (a) parceiro (a) e utilizar a experiência como uma prova para o futuro. Porque o mais importante para uma relação é apreciar e curtir a companhia do outro”, conclui a cirurgiã-dentista.
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maisaude
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