O poder das vacinas

A vacinação é uma importante forma de imunização, capaz de salvar vidas e erradicar doenças


Sarah Sanches, jornalista


Duas invenções foram de grande importância para mudar o panorama da saúde da população mundial, quais sejam, o tratamento da água e a vacina, medidas eficazes na prevenção e erradicação de doenças epidêmicas. É o que afirma a médica infectologista e pediatra Dra. Normeide Pedreira, responsável técnica da SERVAC, clínica especializada em vacinação e infectologia pediátrica, única do interior da Bahia a obter o Selo Cinco Estrelas da Sociedade Brasileira de Imunizações.


Embora muito conhecida, poucos sabem de fato como a vacina funciona e de que modo ela contribui com a saúde pública. Responsável por imunizar a população e impedir ou dificultar a circulação de agentes causadores de doenças, a vacina é uma versão atenuada ou inativa destes agentes que vai fazer com que o organismo produza anticorpos e células de memórias que fortalecerão o sistema imunológico.


Em outras palavras, o que a vacina faz é apresentar o causador da doença ao corpo, só que em uma versão mais fraca, incapaz de trazer danos à saúde da pessoa, com o objetivo de ensinar o organismo a se defender. Caso entre em contato novamente com aquele agente contra o qual se vacinou, o corpo vai reconhecê-lo e vai intensificar a produção dos anticorpos que ele já sabe que são capazes de expulsá-lo. Desse modo, constitui-se enquanto uma forma de imunização ativa, que é quando o próprio organismo se torna capaz de, sozinho, combater um invasor.


Contudo, é importante ressaltar que as vacinas são proteções direcionadas: cada vacina protege a pessoa de uma doença ou de um grupo de doenças específicas. A vacina contra hepatite B protege da hepatite B, a da rubéola protege da rubéola e a trivalente da gripe protege, a cada ano, de três tipos diferentes de vírus, como, por exemplo, o H1N1, H3N2 e o Influenza tipo B. Assim, para se manter prevenido é fundamental manter a cartela de vacinação atualizada.

As vacinas são poderosas aliadas não só no cuidado com a saúde individual, mas também na promoção da saúde coletiva.

Mais do que uma forma de cuidado com a própria vida, a vacinação cumpre um papel importante na saúde pública. Isto porque as doenças que as vacinas combatem são doenças graves e de caráter epidêmico, ou seja, doenças que facilmente se espalham, atingindo um grande número de pessoas ao mesmo tempo. Por este motivo, são distribuídas para a população de forma planejada, com o objetivo de cobrir a maior porcentagem possível de pessoas e lugares. Ao imunizar 90 a 95% dos grupos elegíveis, a cobertura vacinal garante que não haverão surtos ou epidemias de doenças, impedindo a ocorrência de um grande número de mortes evitáveis ou sequelas de longo prazo, bem como a superlotação de UPAS, policlínicas e emergências hospitalares, redirecionando os gastos com saúde pública para outras demandas populacionais e garantindo melhor qualidade de vida para a população.


Em entrevista exclusiva à MaiSaúde, Normeide Pedreira, que é também Doutora em Medicina e Saúde Humana, Mestre em Medicina Interna e Especialista em Pediatria e Infectologia Pediátrica, coordenadora do site “Pediatria para Famílias” da Sociedade Brasileira de Pediatria, além de professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), tira dúvidas sobre vacinação e doenças infectocontagiosas. Confira:


MaiSaúde: O que é o PNI, Programa Nacional de Imunizações? E qual a importância da sua criação?

Normeide Pedreira: O Programa Nacional de Imunizações, ou PNI, foi fundado em 1973 e é referência internacional de política pública de saúde. É um programa que visa garantir o acesso de toda população às vacinas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde através dos postos de saúde. Essas doenças, cujas vacinas são garantidas pelo PNI, são aquelas consideradas de importância na saúde pública, justamente pelo risco de complicação e morte. Então, sua importância está nisso, garantir a distribuição das vacinas de forma calendarizada e mesmo em locais de difícil acesso. Ainda que haja outras vacinas, disponíveis em clínicas particulares, o que se recomenda é que, no mínimo, as vacinas do PNI sejam aplicadas em todas as crianças, de acordo com a idade recomendada para cada uma e também o HPV no fim da infância e, ainda, a Influenza em todas as campanhas que o Ministério da Saúde promove.


MaiSaúde: Por qual motivo a vacinação contra a Influenza deve ser repetida todos os anos pelas mesmas pessoas, se, via de regra, as vacinas são aplicadas em uma ou, no máximo, duas ou três doses?

Normeide Pedreira: A vacina de gripe é diferente a cada ano porque o vírus da Influenza sofre mutações. Então, a vacina tem que ser diferente dos anos anteriores. A vacina do governo protege contra três tipos e a das clínicas particulares contra quatro tipos de vírus de Influenza. Tem anos nos quais um desses tipos não muda, permanece igual, mas mudam os outros dois ou três. Isso é bem variável. Por este motivo, existe uma vigilância mundial da gripe para ver de que forma o vírus mudou, para saber qual vai ser a melhor vacina para cada ano. Isso é informado à Organização Mundial de Saúde, que repassa aos laboratórios produtores qual a forma ideal para a vacina daquele ano. Assim, para se manter protegido é preciso se vacinar todos os anos.


MaiSaúde: Em 2016, o Brasil recebeu o certificado de erradicação do sarampo. Contudo, agora em 2019, após um caso endêmico em 2018, e outro em fevereiro deste ano, o certificado foi perdido. Parte significativa destes casos foram importados. O que isso significa?

Normeide Pedreira: O Brasil teve muito trabalho, investiu muito para se ver livre do sarampo, uma doença grave que matou muitas crianças e adultos também. Contudo, nós tivemos, só de 2018 a 2019, mais de dez mil casos de sarampo, casos, inclusive, com morte. E por qual motivo o sarampo voltou? Porque as pessoas deixaram de se vacinar. Porque se nós tivéssemos uma cobertura de 95% da população vacinada, nós não estaríamos vivendo isso. Sobre terem ocorrido casos importados, é importante pontuar que há uma diferença entre estes e os casos que nós chamamos de autóctones. Importado significa que vem alguém de qualquer país do mundo para o Brasil, sem apresentar sintomas, porque está no período de incubação do vírus adquirido lá fora e, chega aqui, começa com sintomas do sarampo. Esse é um caso importado. Caso de transmissão autóctone é aquele que já ocorre a transmissão aqui dentro do nosso país, não veio de fora, está acontecendo aqui...


MaiSaúde: Neste caso, o sarampo seria um exemplo de caso importado ou autóctone?

Normeide Pedreira: Ambos. O Brasil já está com casos autóctones. Por isso, perdeu o certificado. Porque mesmo depois que recebemos essa certificação, tínhamos casos esporádicos de sarampo que, segundo a vigilância exercida, eram casos importados. Isso porque é feito um levantamento de qual vírus circula em cada país, todo um processo de pesquisa que torna possível descobrir de onde veio.


MaiSaúde: Segundo o próprio Ministério da Saúde, “a erradicação de doenças, como a poliomielite, criou falsa sensação de que vacinação não é mais necessária”. Você poderia explicar o porquê, ainda que a doença tenha sido erradicada, é importante manter a vacinação?

Normeide Pedreira: Porque o vírus continua existindo e a vacinação garante que estaremos livres da doença. Porém, se nós vacinarmos todo mundo este ano e pararmos de vacinar no ano seguinte, vão nascer outras pessoas e essas pessoas não estarão vacinadas. Então, elas representarão uma parte da população não protegida. Por isso que todo ano, o ano todo, tem vacinação de rotina e tem campanhas porque a contaminação é uma coisa extremamente dinâmica.


MaiSaúde: A vacina pode provocar efeitos colaterais, como dor e febre. Por este motivo, algumas pessoas assumem que as vacinas podem ser prejudiciais, principalmente, para bebês e crianças. O que essas reações significam? E existe alguma possibilidade das vacinas, de fato, trazerem algum malefício?

Normeide Pedreira: Tratam-se de reações químicas, que também chamamos de reação adversa. Não são todas as pessoas que vão apresentar reações e também não é obrigatório que ocorra alguma reação para que a pessoa esteja protegida. As reações mais comuns para as vacinas injetáveis são vermelhidão, dor e endurecimento local, que costumam durar 48 ou 72 horas, às vezes se prolongando um pouquinho mais. A febre é outra reação comum, mas, na maioria das vezes, a febre secundária à vacinação é uma febre benigna que não vai trazer grandes problemas. Existem outras reações, como as alérgicas, mas é muito, muito raro mesmo que ocorra alguma reação mais séria. As pessoas se perguntam: “se existe o risco de ter uma reação, e se tem até reação mais grave, por que é que eu vou me submeter a esse risco, por que vou me vacinar?”. A resposta é: você vai se vacinar porque, por mais grave que possa ser a reação à vacina, a doença é ainda mais grave que qualquer reação que a vacina possa causar. Ou seja, você vai se vacinar para se proteger contra uma doença que pode te levar à hospitalização e até a morte. Já as reações às vacinas têm manejo, tratamento e duram pouco tempo.


MaiSaúde: A SERVAC Vacinas recebeu o selo de cinco estrelas da Sociedade Brasileira de Imunizações, a SBIm. E é a única no interior da Bahia a alcançar este nível de reconhecimento. Você poderia falar um pouco sobre a SERVAC e de que modo esta beneficia a população do interior do estado?

Normeide Pedreira: A SERVAC completará 22 anos agora em agosto de 2019 e nós temos trabalhado exaustivamente para ajudar o governo no cumprimento das suas metas de vacinação. Muitas pessoas veem a clínica particular de vacina como algo antagônico ao serviço público, mas não é. O serviço particular de saúde auxilia o governo no cumprimento das suas metas. Nesse sentido, obtivemos o selo 5 estrelas por funcionarmos dentro das normas técnicas exigidas pelo Ministério da Saúde. Trazemos para nossos clientes o que há de mais novo em vacinação, tanto em termos de conhecimento, através das atualizações da equipe técnica, como em nossos produtos. Hoje, somos referência na Bahia para empresas, para escolas e para a saúde individual também, trabalhando com todas as idades: desde a gestação, passando pela criança, até o idoso. A maior segurança que garantimos é a de poder contar com o apoio de especialistas em infectologia que vão trabalhar e manejar as reações adversas.


MaiSaúde: Este mês, no dia 28 julho, é comemorado o Dia Mundial de Combate às Hepatites Virais, grupo de doenças de caráter epidemiológico para o qual existem vacinas disponíveis. Gostaríamos que você falasse sobre os principais tipos de hepatite – A, B e C – e sobre a importância da vacinação.

Normeide Pedreira: As hepatites virais são doenças, como o nome já diz, causadas por vírus e que levam à inflamação no fígado. Essa inflamação no fígado pode ser mais leve ou mais grave e pode, em poucos dias, se resolver e a pessoa ficar boa, assim como pode “cronificar” e a pessoa desenvolver adiante fibrose ou câncer de fígado. Nós sabemos, hoje, que a maioria das pessoas que tem câncer de fígado já tiveram hepatite B, que o câncer foi causado por esse vírus, enquanto a hepatite A é uma das principais causas na indicação de transplante de fígado em adultos e em crianças. Assim como a B, a hepatite A pode ser mais leve ou fatal. A hepatite C é a única para a qual não se tem vacina. Na rede pública, temos contra hepatite B, obrigatória desde o nascimento e disponível na rotina dos postos de saúde para adultos. Já a hepatite A só está disponível de 1 ano e 3 meses de idade até 6 anos incompletos, em uma dose só. Em todo caso, as vacinas contra a hepatite são fundamentais porque são vírus que podem matar, podem levar à hospitalização e também causam sequelas de longo prazo, como câncer, cirrose de fígado e também a necessidade de transplante.


MaiSaúde: Você gostaria de deixar algum recado para nossos (as) leitores (as)?

Normeide Pedreira: Eu gostaria de dizer à população que reflita sobre a importância da vacinação como instrumento aliado de todos na prevenção de doenças porque, parafraseando o poeta: "quem ama, cuida". Então, se nós amamos, nós não queremos que nossos entes queridos adoeçam e nem morram por motivo que são evitáveis. As vacinas existem para evitar doenças, para evitar morte, para evitar sofrimento. O sofrimento tanto de quem está doente, como daqueles que perdem uma pessoa querida por uma doença que não precisava ter sido contraída. Para que não tenhamos as doenças e para que doenças erradicadas não voltem, é preciso vacinar. E vacinar de forma homogênea porque não adianta vacinar em um lugar e em outro não. É para ser uma meta do país, do governo: ter 95% ou mais de pessoas vacinadas em todo os estados. Então, vacine-se e vacine toda sua família para evitar desconforto, dor e sofrimento!

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