Mulheres, ansiedade e autocuidado em tempos de isolamento social

Atualizado: Jun 9

Por Deyse Carla Souza Santos Andrade Psicóloga l CRP 03/12226

Especializanda em Terapia Cognitiva-Comportamental

Especializanda em Gênero e Sexualidade na Educação

Mestranda em Cultura e Sociedade/UFBA


O distanciamento social, medida de enfrentamento à emergência de saúde pública provocada pela pandemia da COVID-19, produz um novo modo de estar em um velho e conhecido mundo e os transtornos de ansiedade, que já evidenciavam prevalências significativas entre as mulheres, podem ter seus números ainda mais elevados. Vamos lembrar um pouco do cenário que as mulheres viviam antes do distanciamento?

Segundo o relatório Mulheres no Mercado de Trabalho, da Região Metropolitana de Salvador, produzido, em 2018, pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), e publicado em março de 2019, as mulheres apresentam maiores dificuldades para ocupar postos de trabalho em um contexto em que cresce a População Economicamente Ativa (PEA). Segundo o mesmo relatório: “o crescimento da ocupação beneficiou mais os homens (mais 19 mil postos) que as mulheres (10 mil)” (p.3).


Quanto ao tipo de ocupação, a doutora em sociologia Marcia Leite, afirma que as mulheres estão concentradas nas atividades relacionadas à educação, saúde e serviços sociais, no setor de comércio e reparação. São ocupações vinculadas à esfera do cuidado e se apresentam como uma continuação do trabalho doméstico.

Fonte: Internet


Além disso, são as atividades mais mal remuneradas e que oferecem piores condições de trabalho. Já para os trabalhos que não são adotadas medidas de discriminação no ingresso de novos colaboradores, como no serviço público, as mulheres são maioria.

Ter menos mulheres inseridas no mercado de trabalho, ocupando menos atividades com carteira assinada ou mesmo ocupando as atividades mais mal pagas, impacta diretamente no acesso à renda. Esta configuração influencia no empobrecimento histórico das mulheres e das famílias chefiadas pelas mesmas, que vêm aumentando desde a década de 90. Uma questão curiosa é que a desigualdade de inserção das mulheres no mercado de trabalho não está vinculada à menor escolaridade destas. “Os dados indicam que, assim como entre as ocupadas, estas mulheres possuem escolaridade superior à dos homens inativos: 6,4 anos na média para elas e 5,3 anos para eles” (IPEA, 2016, p.6).


O cientista econômico Cláudio Dedecca, em convergência com à situação apresentada acima, acrescenta que, tentando conciliar suas carreiras com a melhoria da renda e do bem-estar familiar (especialmente para famílias com crianças, idosos e/ou doentes), ou seja, somando todo tempo gasto para produção e reprodução, são elas as que apresentam menor tempo livre, especialmente as que têm filhos de até 15 anos de idade.


Quanto às pesquisas em saúde mental Valeska Zanello, doutora em psicologia, aponta para o número extraordinário de utilização de benzodiazepínicos entre mulheres, visto que elas representam 70% do público consumidor. Como estes são vistos como medicamentos e não como drogas (como ocorre com o álcool, mais utilizado por homens), produz-se a invisibilidade da dependência química, além de silenciar os sintomas dos Transtornos Mentais Comuns como os transtornos de ansiedade.


Transtornos de ansiedade

Sobre os transtornos de ansiedade, o psiquiatra Gustavo Kinrys relata sobre a maior prevalência de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno de Pânico (TP), Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) e Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), com sintomas mais graves, maior probabilidade de desenvolver comorbidades, maior cronicidade e início mais precoce entre as mulheres, em comparação com os homens. Além disso, as mulheres têm medo social mais graves, com maior incidência para Fobia Social (FS) e procuram menos tratamento que os homens para o mesmo.

Existem duas explicações fornecidas no artigo "Saúde mental, gênero e violência estrutural"(2012) da já citada Valeska Zanello, em colaboração com René Silva, doutor em história, para a maior prevalência de transtornos ansiosos entre mulheres:


a primeira, são os hormônios femininos, de acordo com uma corrente biologizante que beneficia a indústria farmacêutica e o discurso médico. É o modelo hegemônico para explicar os transtornos mentais e, a partir dele as formas de tratamento atuais são produzidas, baseadas quase que exclusivamente, na prescrição de medicamentos, na supressão dos sintomas, no silenciamento dos sujeitos adoecidos, na normalização do adoecimento e validação da assimetria social;


a segunda explicação é fornecida por uma corrente sócio-histórica, que considera fatores sociais como fatores de risco para a produção de sofrimento nos sujeitos: “Nesta perspectiva, mais do que consequência de um corpo desregulado, o sofrimento psíquico seria compreendido como resultado de condições e papéis sociais, de relações de gênero e da pressão disso sobre o sujeito.” (p.310). Esta perspectiva propõe modificações nas formas de tratamentos, ampliando, nas intervenções, o olhar para o campo social.


Voltando ao momento atual, que não exclui nenhumas das condições apresentadas até aqui, há uma sequência de novos eventos estressores para elas: a própria pandemia com mortalidade significativa e todas os seus desdobramentos, a reinvenção dos trabalhos em home office, a maior disponibilidade de presença física em casa, fazendo parecer que há também uma maior disponibilidade para o trabalho doméstico para algumas, a continuidade do trabalho em atividades consideradas essenciais (lembre-se que as mulheres são maioria nas ocupações vinculadas ao cuidado) para outras, nem sempre em condições ótimas de segurança, os filhos em casa, tendo nelas as principais cuidadoras, lutos complicados, mais violência doméstica, medo, tristeza, confusão, entre outros.

Diante de todos esses eventos, a expectativa, para muitos profissionais de saúde mental, é de que haja agravamento nos quadros de saúde mental e de que, muitos pacientes que haviam recebido alta, precisem retornar aos cuidados sistemáticos de saúde mental. Tendo em vista a vulnerabilidade evidenciada para o grupo de mulheres, lembrando que são mulheres no plural porque vários recortes podem ser feitos além do de gênero, localizando muitos outros lugares de vulnerabilidade (raça, classe e sexualidade) e produzindo sujeitos singulares e adoecimentos singulares, o autocuidado durante a pandemia pode ser uma estratégia para a redução dos danos causados neste momento, além do fortalecimento de coletivos e de ações que desestruturem as condições sociais que promovem o adoecimento delas.


Autocuidado


Por autocuidado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) define: “a capacidade de indivíduos, famílias e comunidades para promover a saúde, prevenir doenças, manter a saúde e lidar com doenças e incapacidades com ou sem o apoio de um prestador de cuidados de saúde”.

Fonte: Freepik


Abaixo algumas sugestões para o desenvolvimento do autocuidado:

1- Autoconhecimento. Pensar sobre as identidades que fluem em você. Perceber que as subjetividades são produzidas também a partir do social. Se dar conta de que existe uma organização social que estrutura e mantêm a vulnerabilidade para alguns grupos sociais e as mulheres, pessoas negras, pessoas que trincam a heteronorma são exemplos. É desejável que esta compreensão te leve para a avaliação das suas crenças negativas a seu respeito. Te leve também à compreensão dos seus sofrimentos, localizados no social. Ou seja, parte significativa deles não são naturais, nem mesmo uma condição exclusiva sua. Muitas outras mulheres podem também estar vivendo sofrimentos parecidos com os seus, sofrimentos alicerçados no social.

2 - Construção de rede social de afetos, de apoio, composta por pessoas que também estão cientes das condições sociais que estruturam o sofrimento das mulheres para que possam se fortalecer nesse encontro e, quem sabe, construírem ações para mudança desse cenário.

3 - Afastamento de agentes promotores de violências (em alguns casos, o contato com CRAS, CREAS do seu município ou bairro, pode te ajudar a construir possibilidades para este afastamento).

4 - Cuidar-se como fizer sentido para você, de acordo com suas necessidades e realidade. Perceba que resistências podem aparecer, tendo em vista a história de aprendizagens sobre sua relação com consigo. Lembre-se, mulheres são educadas para cuidar do outro (especialmente de homens) e são constantemente expostas a informações negativas sobre elas próprias (fofoqueira, invejosa, promiscua, feia, além da objetificação de seus corpos).


Amar-se é uma construção que talvez você só tenha se dado conta de fazer agora e cuidar-se pode demandar esforço inicialmente, é um trabalho de resistência.

Algumas perguntas podem te ajudar para que inicie descobertas sobre si: quais atividades são prazeres par mim? O que gosto de fazer? Conversar? Ouvir música? Nutrir minha espiritualidade? Dançar? Escrever? Cultivar? Fazer atividades físicas? Descubra-se, as portas estão abertas para você.

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