Hipocondria: prejuízos além da automedicação

Por Marineide da Ressurreição Souza l CRP 03/12224

Psicóloga, especialista em Educação, Gênero e Direitos Humanos


O transtorno de ansiedade de doença ou hipocondria se caracteriza pelo medo persistente de ter uma doença grave ou pela ideia de que já a tem. Nesse sentido, a preocupação em estar gravemente doente se torna persistente, apesar de resultados de exames e opiniões médicas contrárias ou de comprovação de boa saúde. Assim, ocorre alto nível de ansiedade com a saúde, seguidas de hipervigilância sobre eventuais sintomas físicos.


Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais (2014), as preocupações são, geralmente, acompanhadas por uma série de comportamentos que tem a intenção de “encontrar o diagnóstico” ou prevenir a possível doença. Na busca pela “investigação” de seus sintomas, a pessoa costuma procurar vários médicos, muitas vezes estabelecendo dificuldades na relação médico-paciente e, por vezes, sendo submetida a procedimentos desnecessários. Também pode ocorrer um comportamento “inverso”, em que o indivíduo pensa de modo obsessivo na doença temida, mas evita o médico com medo de confirmar seu temor. Além disso, é comum que o quadro se agrave quando uma pessoa próxima é diagnosticada com determinada doença, em especial se for uma doença grave, o que faz com que o indivíduo conclua que está sentindo os mesmos sintomas do doente.


A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) compreende que a experiência de ansiedade decorre de um senso aumentado de vulnerabilidade, no qual o indivíduo costuma fazer atribuições exageradas de ameaças ou perigos a eventos que outros poderiam processar como neutros. Desse modo, a pessoa costuma processar seletivamente sinais de ameaça, ao confirmar sua expectativa de perigo e descarta as evidências que não confirmam sua probabilidade de risco, processo conhecido como atenção seletiva.


É comum encontrar no quadro de hipocondria presença de pensamentos negativos catastróficos, nos quais o indivíduo interpreta de forma errônea variações e sensações corporais, bem como informações médicas, como indicação de que ele possa estar gravemente doente. Em resposta a essa avaliação catastrófica, entra em um estado de apreensão, o qual, embora infundado, acionará respostas cognitivas, emocionais, fisiológicas e comportamentais de ansiedade que serão interpretados pela pessoa como uma confirmação de que algo sério está realmente ocorrendo com ela.


Foto: Reprodução


Cabe acrescentar que, na manutenção desse transtorno, o indivíduo costuma desenvolver comportamentos de busca de segurança, que pode ser qualquer resposta cognitiva ou comportamental que vise evitar ou minimizar um desfecho temido. A título de ilustração, o paciente pode, por exemplo, realizar exames ou repeti-los com frequência, assim como buscar informações de forma excessiva sobre a doença temida através da internet, o que se caracteriza como um comportamento de risco, haja visto que, por meio disso, ele pode se auto diagnosticar e ingerir medicamentos sem a orientação de um profissional da saúde qualificado. Tal prática, de acesso a informações inadequadas ou que não contemplam a sua real necessidade, podem, além de alcançar efeitos prejudicais à saúde, como a intoxicação por uso inadequado de medicamentos, provocar reações alérgicas, dependência de substâncias medicamentosas e até mesmo levar à morte.


Somado a isso, é comum fazer checagens repetidas do próprio corpo: verificação frequente de pulso, pressão e temperatura (muitas vezes em situações em que existem variações normais, como durante a prática de exercícios físicos ou em momentos de estresse). No entanto, de acordo com autores como Clark e Beck, os comportamentos de segurança ou evitação, como parte de todo transtorno de ansiedade, impede que a pessoa aprenda que sua percepção de ameaça ou perigo é falsa, resultando na manutenção do quadro de ansiedade.


Ressalta-se que esse transtorno causa comprometimento funcional, perdas importantes no funcionamento físico e qualidade de vida, além de interferir nas relações interpessoais e comprometer o desempenho profissional. Diante disso, umas das medidas para o tratamento da hipocondria é que o indivíduo possa dispor de um (a) profissional da medicina de confiança, que dê atenção às suas queixas físicas e realize novos exames apenas quando necessário. Além disso, é fundamental que seja inserido no processo de psicoterapia com objetivo de alcançar flexibilidade cognitiva, reestruturar as interpretações distorcidas e esquemas de vulnerabilidade a danos e doenças. Assim, o (a) psicólogo (a) o ajudará a abandonar comportamentos de segurança inadequados que mantém o quadro da ansiedade de doença.

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