Eu tive e sou feliz: mulheres diagnosticadas com câncer de mama contam suas histórias

Sarah Sanches, jornalista




- Mãe, eu não quero que você fique careca! – falou a pequena Sofia tentando segurar as lágrimas, sem sucesso, após a mãe anunciar que precisaria tomar um remédio que ocasionaria a perda dos seus cabelos.


- Eu já sei, mãe! – exclamou Laura, de apenas três anos, interrompendo o choro angustiado da irmã dois anos mais velha. - Mamãe, a gente faz igual como você faz com a gente, você come fruta e verdura e seu cabelo cresce de novo.


Emocionada, Fabiane sorriu aliviada com a solução dada pela filha, ora por saber que elas não compreendiam a dimensão que um diagnóstico de câncer poderia ter, o que significava menos sofrimento para elas, ora por descobrir que elas conseguiriam lidar com as mudanças ocasionadas pelo tratamento, sendo companheiras de luta da mãe. Para resolver a angústia da Sofia com a carequice da mãe, Fabiane a chamou para escolher com ela a peruca que usaria durante o processo de quimioterapia.


Fabiane Araújo, 44 anos, foi diagnosticada com câncer de mama em 2015, um pouco antes do seu aniversário de 40 anos, após notar desconforto mamário. Médica ginecologista, ela não temeu pela sua vida ao receber os resultados da mamografia e ultrassom que confirmavam a presença de um nódulo. Era superficial e estava em estágio inicial. Conhecia bem a doença e sabia que seu diagnóstico, por ter sido precoce, trazia grande probabilidade de cura. Preocupada com o estigma que o câncer carrega - de doença fatal -, bem como com a desinformação que ainda cerca a doença, aconselha: “As mulheres precisam ter consciência de que, há muito tempo, o câncer de mama não é uma sentença de morte”. Para ela e tantas outras, não foi.


Fabiane encerrou parte do seu tratamento em novembro de 2015, seis meses após o diagnóstico. Realizou uma cirurgia de mastectomia bilateral, com retirada de ambas as mamas, seguida de reconstituição imediata dos seios, e sessões de quimio e radioterapia. Hoje, toma bloqueadores hormonais e realiza checkups periódicos, rotina comum de quem venceu a doença. Conta que, para chegar até aqui, teve o apoio incondicional dos pais, das irmãs e do marido. Com carinho, fala sobre o papel do companheiro nessa trajetória: “Ele cuidou, como deveria ter cuidado. Não me colocou no lugar de vítima, nem ficou lamentando. Estava comigo o tempo todo, como um parceiro tem que ser, não como alguém que está carregando um peso. Eu me cuidei e deixem que cuidassem de mim”.


Equilíbrio emocional e apoio psicológico, principalmente na figura dos familiares, mas também de forma especializada, são peças-chave para passar com mais leveza pelo sofrimento físico que o tratamento provoca. A quimio e a radioterapia são, inegavelmente, procedimentos com efeitos colaterais diversos e dolorosos que podem afetar a autoestima e o bem-estar físico das pacientes oncológicas, em maior ou menor grau. Não é fácil, ainda que possa ser vitorioso, encarar uma doença que afeta tantos aspectos cotidianos, físicos e psíquicos e que requer tratamento duradouro, com efeitos de longo prazo.


“A gente só não pode arrastar a corrente do câncer. Eu não arrastei, tive braços muito fortes dentro da minha casa”, Fabiane Araújo.


Como alguém que presta atendimento ginecológico, Fabiane tem contato com diversas pacientes que estão lutando contra o câncer. O momento da consulta acaba sendo precioso para ambas, visto que poder trocar com alguém, especialmente uma profissional da área médica, sobre uma condição de saúde que ela também vivenciou, possibilita sensibilidade e identificação na escuta e no falar. Para Fabiane, é uma das suas muitas missões na vida. “Muitas pacientes que tiveram câncer de mama me procuram. Eu acho que eu tenho obrigação moral, afetiva e espiritual de partilhar a minha história. Hoje, eu posso ajudar muita gente falando sobre o que eu vivi e sobre como elas podem viver também, que elas podem passar pela doença de uma forma mais branda”.


Seja graças à sua profissão ou seja por ter encarado a doença abertamente, sem esconder ou negar a ninguém que estava em tratamento, Fabiane se tornou referência sobre o assunto para aqueles e aquelas que a conhecem. Foi assim que, uma tarde, recebeu a ligação de Thais, amiga de um amigo seu. Já em tratamento, ela estava à procura de uma peruca. Não queria saber de mais nada, a não ser esconder a careca e a doença. “Fabi me deu um choque de realidade”, ela comenta sobre a ligação, apontando a importância de ter conversado com outra mulher que havia enfrentado o câncer de mama.


Thais Ferreira, 43 anos, estava vencendo uma batalha pessoal quando recebeu o diagnóstico em 2017. Sua filha, Maria Alice, que recebeu este nome em homenagem à avó paterna, Alice, e à Nossa Senhora, havia nascido com apenas 26 semanas de gestação e 500 gramas. Ficou três meses internada na UTI Neonatal do Hospital Santa Emilia, requerendo diversos cuidados especiais para sua sobrevivência e desenvolvimento. Thais estava tão envolvida com a recuperação da filha que ignorou os sinais de que algo não estava indo bem com a sua própria saúde. Com dificuldades para amamentar a bebê, ela procurou um mastologista que notou a saída de sangue das mamas. Suspeitaram, a princípio, de leite empedrado.


Era outubro, mês da campanha de prevenção ao câncer de mama, quando Thais se deu conta de que havia um nódulo em um dos seus seios. A repetição da propaganda do Outubro Rosa na televisão e os outdoors na rua chegavam aos seus olhos como mensagens de alerta, talvez o sangramento tivesse outra origem, que não o leite materno. Dias depois da primeira consulta, ela já sabia todas as informações sobre seu diagnóstico: o câncer estava em um estágio bastante avançado.


Turismóloga por paixão, ela decidiu viajar para lidar com a notícia, foi a Maceió ao lado do marido. “Eu me jogava no mar, não queria saber de mais nada, achava que eu ia morrer”. Acreditou, de verdade, que não sobreviveria. Depois, esbravejou contra o destino: havia acabado de encarar um parto complicado e a possibilidade de perder a filha, recém-nascida. Contudo, foi justamente pensar nela que lhe deu forças e coragem para lutar. “Alice tão pequena, meio quilo, sobreviveu. Se ela tão indefesa, venceu tudo, agora eu vou ter que lutar também, não tenho porque esmorecer”. Agarrou-se à vida da filha para não desistir da sua. Ao seu lado, a família, o marido e a família do marido. Uma verdadeira bolha do bem, como ela gosta de chamar.


Em meio às consultas e exames, descobriu que tinha uma mutação genética, uma alteração no gene BRCA2. A mutação representa um risco aumentado de 85% de câncer de mama e 20 a 25% de câncer de ovários. Por profilaxia, retirou as duas mamas, útero e ovários. A descoberta da mutação vem mudando a história das mulheres da sua família que têm feito, de forma preventiva, rastreamento genético e mamografia, a fim de evitar a doença ou se cuidar o mais rápido possível.


Em abril de 2018, encerrado todos os procedimentos cirúrgicos, Thais voltou a sonhar com novas metas profissionais. Despedida, 15 dias antes do seu diagnóstico, da agência de turismo na qual trabalhou por mais de dez anos em cargo de gerência, sem sequer receber uma ligação solidária da mesma, resolveu empreender e dar início à sua própria agência ao invés de voltar ao mercado como funcionária. Junto a dois colegas de profissão, abriu a Oxigênio Viagens. Voltar ao trabalho foi motivo de alívio e esperança por dias preenchidos com atribulações outras e alegrias. “Quando a pessoa se dirige à minha agência, geralmente, são férias ou ocasiões especiais, como uma lua-de-mel. Então, eu trato de alegrias. Isso dá uma leveza na vida da gente, no dia a dia”, comenta com os olhos azuis esbugalhados e brilhantes.


É com esse mesmo entusiasmo e com um sorriso estampado no rosto que fala sobre sua relação com outras mulheres sobreviventes do câncer de mama. “A gente se entende completamente, uma sabe o que a outra está sentindo na pele. É um carinho tão grande que parece que somos amigas de infância”. O contato com Fabiane lhe apresentou, entre outras, Maria do Carmo, a Carminha, como é carinhosamente chamada.


O câncer chegou à vida de Maria do Carmo Bastos Nagahama, 44 anos, muito tempo antes de ela notar o nódulo que lhe levaria ao diagnóstico e não foi por histórico familiar da doença. Nascida em Salvador, filha de um casal de médicos, ela decidiu largar o curso de medicina para fazer odontologia, seu sonho. Aprovada no vestibular da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), ela se mudou para a Princesa do Sertão. Aqui, conheceu o homem que viria a ser seu marido e começou, ainda na graduação, a trabalhar com pacientes oncológicos, estagiando de segunda a sexta no Núcleo de Câncer Oral (Nucao). Depois de formada, obteve a titulação de Mestre em Odontologia com uma pesquisa realizada junto à pacientes acometidos por câncer de cabeça e pescoço. Na clínica, enquanto cirurgiã-dentista, ou na sala de aula, enquanto docente, o tema está presente na sua vida quase que cotidianamente.


Era 2016, uma segunda-feira de julho, véspera do feriado de Nossa Senhora de Sant’Ana, padroeira de Feira. Maria do Carmo havia voltado de um retiro católico com o marido e se preparava para um jantar com amigos, quando, depois do banho, passando óleo hidratante, sentiu um nódulo. No dia seguinte, um amigo médico abriu sua clínica para fazer o exame de ultrassonografia. Na quarta, fez a mamografia e a biópsia. Dois dias depois, recebeu a confirmação: era câncer. Embora o médico tenha sugerido apenas a remoção do tumor, ela insistiu para retirar as duas mamas e fazer, na mesma cirurgia, a reconstituição. Um direito garantido pela Lei nº 9.797/1999, que impõe aos planos e seguros privados de assistência à saúde a obrigatoriedade de, havendo condições técnicas adequadas, reconstruir as mamas da paciente no mesmo tempo cirúrgico da mutilação decorrente do tratamento do câncer.


Contudo, violando os direitos legais da pessoa com câncer, o plano de saúde de Carminha negou-se a aprovar o procedimento. Ela precisou acionar advogados e recorrer contra a decisão da empresa, um processo que durou entre 15 e 20 dias. “O que o médico solicitar, por lei, os planos de saúde podem até recorrer, mas eles são obrigados a cumprir. Eu tive que entrar na justiça, porque o convênio não queria. Mas fiz minha reconstrução e a minha mastectomia bilateral toda pelo convênio”, ela conta enquanto alerta para a importância das pacientes oncológicas aprenderem sobre os direitos que lhe cabem.


Antes de realizar a cirurgia, Maria do Carmo comunicou às suas e seus pacientes que precisaria se afastar um tempo da clínica por conta da doença e, por isto, elas poderiam decidir continuar seus tratamentos odontológicos com outra profissional ou aguardar o seu retorno. Anunciar sua condição de saúde fez com que diferentes pacientes compartilhassem sua própria história contra o câncer, algo que elas nunca haviam dito anteriormente.


- Doutora, não se preocupe, não! – falou enfaticamente uma delas – A senhora vai chegar lá, tenho certeza! Deixa só eu te mostrar uma coisa...


A paciente, uma mulher de 72 anos, muito bonita, arrumada e alto astral suspendeu a blusa e mostrou a cicatriz da sua própria cirurgia.


- Eu venci um câncer de mama, eu venci um câncer de tireoide, enterrei meu marido e estou aqui, dona de mim, dirigindo um carrão! – contou rindo como quem zomba da doença e celebra a sua própria força.


Tocada pelas histórias compartilhadas com ela, Carminha se sentiu ainda mais próxima da sua própria fé, sentia que o contato com aquelas mulheres, bem como toda sua história profissional, havia sido preparo para ela enfrentar as adversidades da sua própria vida. “Você vai passar por tudo isso, mas você vai vencer!”, ela repetiu para si mesma.


"Quando a gente se olha com autopiedade, a gente acaba, muitas vezes, desistindo. Temos que nos amar como estamos e acreditar que a cura é possível”, Maria do Carmo Nagahama.


Mãe de duas meninas, uma de 10 e outra de cinco anos quando foi diagnosticada, ela levou as meninas para visitar uma amiga que estava em processo de quimioterapia, tinha a intenção de mostrar a elas que a doença não era o fim do caminho, não era uma sentença de morte, que as coisas ficariam bem, preparando-as para as mudanças inerentes ao tratamento. Para fortalecê-las, não se deixou esmorecer na frente delas em nenhum momento. O que carrega como uma das melhores coisas que sua luta contra o câncer pôde lhe proporcionar: que suas filhas olhem para ela hoje e saibam que podem vencer qualquer coisa, qualquer obstáculo que a vida lhes trouxer, porque a mãe também o fez. “Se eu não tivesse conseguido isso, era isso que eu queria. Acho que isso foi o mais importante para mim”, ela diz emocionada.


Quando ficava muito angustiada, o marido a abraçava até ela se acalmar. “Olha, vamos ficar calmos. Temos duas meninas aqui, não podemos fragilizar”. Foi, o tempo todo, uma fortaleza ao seu lado. Os pais fizeram o mesmo. Jamais soube se eles sequer choraram com o seu adoecimento, porque se mantiveram firmes para apoiá-la. Nos momentos de dúvida quanto ao tratamento, recorria à Fabiane, que conheceu através de uma prima sua, com quem construiu uma relação bonita de confiança e amizade.


- Fabi, eu vou começar a radioterapia. Será que faço aqui em Feira ou vou para Salvador? – perguntou antes de ter que começar as sessões, angustiada.


- Carminha, não tem necessidade alguma de você fazer em Salvador, a UNACON é um centro de atendimento de excelente qualidade, onde o tratamento é feito com efetividade. Eu mesma fiz aqui. – ela respondeu com a voz suave e segura, comum à sua fala.


E assim ela o fez.


Finalizadas as sessões de radioterapia, voltou ao trabalho. É professora do curso de odontologia na Faculdade Maria Milza (FAMAM), em Cruz das Almas, onde coordena a área de Endodontia e o projeto de implantação do biobanco de dentes, e na Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC) em Feira de Santana, onde também faz atendimento clínico e cirurgias odontológicas. É uma mulher com multitarefas e paixão declarada às profissões que escolheu. Na sala de aula, faz questão de falar sobre as diferentes manifestações do câncer e não esconde que ela mesma foi vitimada por ele. “Eu tento fazer a diferença nesse momento, sempre semeando um pouquinho das informações”.


Eu tive e sou feliz


Por reconhecerem a importância de, enquanto guerreiras na luta contra o câncer e sobreviventes, falarem sobre a doença desde seu ponto de vista, da perspectiva de quem enfrentou e venceu a doença, que Fabiane, Maria do Carmo e Thais, junto a algumas outras mulheres, decidiram criar um grupo virtual, chamado Mama Amiga. Nele, diferentes mulheres diagnosticadas com câncer de mama compartilham suas dores e alegria. Posteriormente, surgiu o Eu tive e sou feliz, um grupo menor entre elas com o objetivo de promover um evento sobre o tema. Já se apoiavam mutuamente, contribuindo para a autoestima e superação dos momentos difíceis uma das outras, e queriam expandir esses laços de apoio e cuidado.


Em 2017, após encontrar, na internet, um grupo de mulheres do Rio Grande Sul que realizava encontros para distribuição de lenços, Fabiane surgiu com a ideia de reunir mulheres vitimadas pelo câncer em um evento a fim de contribuir para a autoestima daquelas em tratamento.


- Não vamos distribuir lenços, isso todo mundo já faz! – Fabi falou, decidida a encontrar outros meios para promover bem-estar entre mulheres com câncer – Temos que levantar a autoestima delas. Vamos fazer um evento, vamos falar de beleza, de saúde, nos valorizar.


O evento Eu tive e sou feliz aconteceu no Espaço Acalanto, na Av. Maria Quitéria, no final do mês de outubro. A programação contou com um desfile e falas das organizadoras sobre bem-estar, atividade física, sexualidade, alimentação, entre outros temas, sempre com positividade e incentivo. Compareceram mais de 150 pessoas, entre elas, Fernanda Maia, 38 anos. Careca, sem lenço e nem peruca, ela apareceu ao encontro deslumbrante e de cabeça erguida. Sua altivez deixou a todas boquiabertas. Começava ali mais um vínculo de amizade entre elas.


Fernanda nasceu no Acre, estado do qual se sente orgulhosa de ser filha. Há quase 10 anos em Feira de Santana, ela carrega um sotaque gostoso, que mistura características da região Norte com o interior da Bahia. Chegou aqui após o marido, que é médico, ser convocado a assumir um hospital em Uauá, município localizado a cerca de 300 km de Feira. Depois, mudaram-se para cá. Professora de formação, mãe de um rapaz de 17 anos, o Pedro, e uma menina de sete, Sofia, essa nascida em terras baianas, ela era mãe em tempo integral quando recebeu o diagnóstico do câncer de mama. Longe dos pais e demais parentes, teve o marido como égide.


Alguns meses antes conheceu a Associação de Apoio à Pessoa com Câncer (AAPC), entidade sem fins lucrativos que atende pacientes oncológicos de Feira de Santana e região. Na companhia do esposo e dos dois filhos, visitou a associação e decidiu, junto com a família, apadrinhar uma das pacientes, Tati, uma menina com leucemia. O contato com Tati, fez com que Sofia, na época com cinco anos, compreendesse melhor e com mais tranquilidade o adoecimento da mãe.


- Mãe, você está com a mesma doença da Tati, né? Você vai ficar boa, então, porque a Tati já tá com cabelinho. – falou a pequena, confiante da recuperação da mãe.


Durante toda a quimioterapia, que durou seis meses, ela se arrumava como quem ia a uma festa. Toda semana escolhia roupa, salto, maquiagem e a careca. “Eu estava indo para o lugar que, abaixo de Deus, era a minha cura. Eu tinha que ir como se estivesse indo ao melhor lugar do mundo, ia impecável”, ela conta, sorrindo orgulhosa da forma como conseguiu afrontar a doença. Quando chegava lá, era sempre recebida com a surpresa e o entusiasmo das companheiras de tratamento. “Como você consegue estar tão linda assim?” era a pergunta que ela mais ouvia. Após algumas conversas, a conclusão delas sempre era: “Agora eu vou fazer como você”. E, assim, ela motivava as outras mulheres a se sentirem bem consigo mesmas, demonstrando que o câncer não precisava significar a negação da feminilidade, a impossibilidade de ser, sentir e se apresentar bonita.


Com isso, decidiu que, após a conclusão dos procedimentos médicos necessários à sua cura, começaria a trabalhar com moda. Este ano, abriu as portas do seu Closet, uma loja de roupas localizada na Av. Noide Cerqueira. Entre a moda e a família, ela pratica esporte e participa voluntariamente do Anjos do Bem, um projeto de doação de marmitas para pacientes em tratamento na UNACON e no Hospital Dom Pedro Alcântara. São cerca de 300 marmitas por semana, preparadas e distribuídas por elas aos pacientes que, vindos de outras cidades ou de bairros distantes, passam o dia inteiro nas unidades. Fernanda começou a participar quando ainda estava em tratamento. Ia todas as quartas, sem peruca e sem lenço. Assim como no GBO, onde fazia tratamento, as mulheres a recebiam espantadas: “Como assim você não está tentando esconder a doença?”. Para ela, nunca se tratou de levar apenas as marmitas, mas também esperança de que é possível passar pela doença sem ser derrubada por ela.


“Muitas vezes, a gente fica aprisionada porque é imposto que não podemos mostrar nossas carecas. Eu ia lá e mostrava que podemos sim”, Fernanda Maia.


Em entrevista, todas falaram sobre a recepção dada pelas pessoas, em espaços públicos e, algumas vezes, em relações interpessoais, tanto ao conhecimento de que estavam doentes, quanto, e talvez principalmente, à ausência de cabelos, sinal mais evidente de que enfrentavam o câncer. O estigma do câncer enquanto atestado de óbito, como caminho inescapável para a morte, é um dos aspectos sociais que mais afetam as pacientes oncológicas. Ser olhada com pena, como alguém que está prestes a morrer, é profundamente doloroso para quem, em tratamento, precisa de forças para se manter sã e confiante no porvir. Ter que se sentir impelida a negar sua condição de paciente ou de sobrevivente para não enfrentar os olhares ou discursos daqueles que assumem a luta contra o câncer como, invariavelmente, perdida, é mais uma batalha para elas. Se pudessem, talvez, todas pediriam para que fossem vistas como de fato são: mulheres fortes, corajosas e vitoriosas.


O câncer, embora muito difícil e doloroso, pode ser professor de grandes lições, trazendo para aquelas muitas que sobrevivem aprendizados valiosos. Para Fabiane, Maria do Carmo, Thais e Fernanda, um das maiores lições deixada, cada uma a seu modo, foi poder ver a vida com outros olhos: enxergar mais beleza nas pequenas coisas, preocupar-se menos com aquilo que não se pode mudar, atribuir um peso menor aos problemas cotidianos, aproveitar mais intensamente suas relações, olhar com mais carinho e cuidado para si mesma, priorizar seus sonhos e necessidades e, acima de tudo, ser feliz.


Como boas amigas, as quatro encontram-se ocasionalmente para trocar figurinhas e conversar sobre a vida. Unidas pelo câncer, a relação delas extrapolou a do


ença e se mantém em função das suas afinidades pessoais e da confiança e carinho estabelecidos ao longo tempo. Embora tenham transformado o processo de adoecimento em elemento transformador para as suas vidas e as vidas daquelas que conseguem alcançar com as suas histórias, elas são muito mais do que pessoas que sobreviveram ao câncer, são profissionais, amigas, mães, filhas e companheiras. Mulheres com uma vida inteira pela frente.


“Não é porque você se tratou que acabou. Você está se redescobrindo como pessoa, o câncer não é o fim, é o início de uma nova história, de uma nova vida”, Thais Ferreira.




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