Consequências dos abusos e agressões na saúde mental da mulher

Por Dra. Ana Virgínia Paiva Damasceno, médica psiquiátrica

CRM/BA 19173


Pode causar surpresa ou estranheza o fato de uma mulher permanecer em convivência com alguém que a submete a humilhações frequentes, alguém por quem é surrada, espancada, e até mesmo causa-lhe mutilações físicas ou sua morte. Difícil, para muitos, entender as razões pelas quais mulheres vítimas de abuso não considerem um caminho para sair de um relacionamento, ou mesmo visualizem possibilidades de vida fora daquela relação, não conseguindo sair dela nem acusar seus parceiros pelas violências cometidas. As mulheres que são vítimas veem, em torno de si, um “muro invisível” que não conseguem transpor. Sentem-se “presas” em uma situação para a qual não enxergam facilmente uma saída.


Os efeitos psicológicos da violência são intensos e podem ser paralisantes, do ponto de vista de uma tomada de decisão de enfrentar o agressor, seja nas rotinas do dia-a-dia ou nos aspectos da Justiça. Para uma mulher que frequentemente é inferiorizada em seus direitos, desvalorizada, menosprezada, debochada em seus atributos físicos, tendo sua autoestima destruída, é muito difícil acreditar que aquela situação de violência não faz parte da vida e deve ser aceita por ela. Cada agressão sofrida gera, além de dores e feridas físicas, sérios traumas psíquicos, podendo causar transtornos mentais na mulher que é vítima. Sintomas de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, entre outros, são frequentemente decorrentes dos maus tratos, sendo fundamental um suporte psicológico e, muitas vezes, um tratamento psiquiátrico por longo prazo.


Um acolhimento e, se necessário, um acompanhamento terapêutico por psicólogo é imprescindível, quando se detectam os abusos. Se forem identificados sintomas que precisem de uma avaliação médica psiquiátrica, isso deve ser feito com a máxima brevidade possível. A frequência de maus tratos causa ansiedade, sem dúvidas, em diferentes graus de intensidade, pois a mulher passa a viver constantemente insegura, amedrontada, na expectativa negativa de novos abusos, não sabendo mais como agir ou falar para não despertar a violência do agressor. Se as agressões envolverem também filhos, o medo torna-se muito maior. A destruição da autoestima, a perda de liberdade, ausência de boas perspectivas de vida futura, a falta de realizações pessoais e tantos outros fatores podem gerar quadro depressivo reativo, causando uma série de consequências mentais e até físicas, incluindo transtornos alimentares, síndromes de dor, distúrbios do sono e ideação suicida. Há possibilidade, ainda, de ocorrer o desencadeamento de comportamentos disruptivos, dissociativos ou até de sintomas psicóticos, levando a mulher a apresentar sintomas de irritabilidade constante, instabilidade emocional, distúrbios na cognição e até impulsos de agressividade. Uma intervenção terapêutica imediata pode minimizar as consequências desses sintomas de transtornos mentais que, inclusive, podem se tornar crônicos, caso não tratados adequadamente. Em muitos casos, faz-se necessário um tratamento com uso de medicamentos ansiolíticos, antidepressivos, estabilizadores do humor, entre outros, por um tempo prolongado.


Ressalte-se a importância de uma rede de apoio emocional e afetivo, além de policial e jurídico, para a mulher em situação de abuso, através de uma completa assistência da Rede Pública e de sua família. Uma segurança garantida é fator indispensável no resgate de sua autonomia e na recuperação de sua Saúde Mental.


É urgente e fundamental que busquemos uma mudança na forma de ver a dificuldade de uma mulher vítima em procurar ajuda: há, ali, uma mente em intenso sofrimento, além de um corpo seriamente agredido!

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