A Passagem do Tempo

Crônica de Emmanuela Schwartz, Jornalista

São quase cinco horas da manhã de mais um dia. O sono me impede de pensar direito. Coloco o coador na cafeteira, a água, mas esqueço de colocar o pó de café e ouço um barulho estranho, que me alerta. Sozinha na cozinha silenciosa, eu dou risada de mim mesma e me surpreendo, mais uma vez, com essa habilidade que tenho de achar graça das coisas mais inusitadas.


Olho pela janela do gabinete e a neblina cobre as casas, as ruas e montanhas que ladeiam minha cidade ao longe, já minhas velhas conhecidas. Apenas as luzes ainda acesas brilham fracamente nos postes espalhados, lembrando-me que a noite já se fora e já é dia. Mais um dia, após uma madrugada longa e muitos cigarros. Especialmente há alguns dias, sinto-me mais ansiosa que de costume e o sono tem se escondido de mim como um filho rebelde. Na verdade, tem sido assim porque passei a me preocupar de uma maneira peculiar com a efemeridade da existência humana ou, mais poeticamente falando, a breve passagem da vida. Sim, essa questão tem teimado em me tirar o sono por noites seguidas.


Será que isso é comum depois de meio século de vida?


Não sei qual foi o gatilho que acionou essa ansiedade insone. Talvez seja apenas a velha saudade inquietante que sinto de minha mocidade ou, ainda, a mania de sentir tudo tão intensamente. A sensação que tenho é que o tempo passa rápido demais. Por incrível que pareça, hoje tenho mais pressa que ontem. E nada acalma essa minha vontade. Voltei a compor, cantar, sonhar, após o silêncio de quase uma década. Talvez minha pressa seja resultado desses hiatos e me encontro nesse canto da sala, querendo fazer tudo ao mesmo tempo: escrever, desenhar, pintar o sete e fazer todo tipo de arte. Tenho essa pressa desconcertante porque compreendi o fenômeno que é viver e isso me trouxe uma urgência inusitada de gastar a vida.


Hoje sei mais ainda da preciosidade de cada momento. Descobri que a felicidade não é o final, é a caminhada. É poder olhar para trás e ver a semeadura feita no caminho, ao longo dos anos. Cada passo, cada tropeço, cada escolha vai escrevendo nossa história.

Envelhecer é mesmo um privilégio e posso sentir a passagem do tempo ao contemplar as rugas que marcam meu rosto, as mãos já não mais tão viçosas, os olhos ainda mais cansados, mas nem por isso menos atentos a tudo. Embora meu corpo registre o peso dos anos, a mente não para. Os olhos seguem registrando na alma minhas memórias afetivas e são essas mesmas memórias que alimentam a minha sede incessante de viver, que cresce como erva daninha em terreno abandonado. Talvez o segredo para ser feliz todos os dias, esteja em não perder a capacidade de sonhar e nunca desistir de acreditar.


Nem mesmo nos momentos mais difíceis, quando tudo parece fora do lugar, eu me esqueci de fazer novos planos. É preciso continuar seguindo em frente. Ter força para ir além, vencer os medos, romper barreiras, distribuir sorrisos, colecionar afetos e abraços. Envelhecer e ser mulher, em um mundo que privilegia jovens e homens é um desafio somente vencido por guerreiras que não se deixam intimidar, nem mesmo com a passagem do tempo.

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